Do Mesmerismo ao Reiki e Práticas Semelhantes

A Verdadeira História do Reiki no Ocidente

“… Todos esses movimentos (dedicados às”curas” ditas metafísicas) não representam mais do que diferentes fases do exercício de poderes crescentes - mas ainda não compreendidos e, assim, com demasiada frequência usados ignorantemente. Compreenda-se, de uma vez por todas, que não há nada de ‘espiritual’ ou ‘divino’ nessas manifestações. As curas por eles efectuadas são devidas, simplesmente, ao exercício inconsciente de poderes ocultos nos Planos inferiores da natureza - usualmente do Prana ou das correntes vitais.

As conflituantes teorias sustentadas por essas escolas estão baseadas em conceitos metafísicos mal compreendidos ou mal aplicados, frequentemente em lógicas falaciosas grotescamente absurdas.(…) Este é um dos maiores perigos do novo ciclo, agravado enormemente pela pressão competitiva e pela luta pela existência…”
Helena P. Blavatsky, 1890 (in Collected Writings, Vol. XII, pág.155)

Mesmer…
Em 1770, um médico vienense, de nome Franz Anton Mesmer, suspeitando da importância e da influência do magnetismo terrestre na funcionalidade biológica dos seres vivos, empreendeu progressivas experimentações visando confirmar a sua tese.

Ia mais longe, ainda, nas suas cogitações: considerava que todos os organismos vivos manifestavam, correspondentemente, propriedades de magnetismo análogas ou afins às da Mãe Terra.

De facto - pensava ele - todos os corpos dos seres animados, tanto quanto os dos seres comummente (e de modo não rigoroso) chamados “inanimados” (o reino mineral) são constituídos de substância responsiva ao magnetismo terrestre e, até, em muitos casos que se constatara, às suas leis da orientação magnética universal. Essa premissa abria-lhe campos inexplorados e promissores no tocante à restauração de equilíbrios em organismos afectados pela doença.

E pensava: neste imenso Cosmos, com todas as suas inteligentes leis, tudo se alinha com tudo, e tudo está interdependente de tudo. Na verdade, a Terra está alinhada com a polaridade Norte-Sul do Sistema Solar e, este, com outras Unidades Colectivas maiores ainda. neste gigantesco Complexo Sideral (além de médico, ele era um vivo amante da Astronomia e da Astrologia). Assim, inclinava-se, igualmente, para a conclusão de que o fluido que influenciava as pessoas (e, designadamente, o seu estado de saúde) proveniente das Estrelas e Planetas era da mesma natureza electromagnética que reconhecia emanando dos magnetos e de todos os organismos vivos terrestres. Havia-se constatado que:
A Terra se comportava como um portentoso íman, sendo que os pólos (demonstradamente) consubstanciavam e fluíam electricidade bipolar: o Norte, de polaridade positiva; o Sul, de electricidade negativa. Por outro lado, essa característica e essas propriedades eram transferidas e repercutidas (ad infinitum) em algumas substâncias naturais precisamente denominadas ímans: seccionadas indefinidamente, conservavam as mesmas virtualidades em matéria de equilíbrios electromagnéticos e de orientação bipolar.

(E reflectia ele) As inumeráveis jazidas de diferentes minérios existentes no subsolo da Terra configuravam sistemas “inteligentes” de distribuição e equilíbrio dessas mesmas energias electromagnéticas, funcionando como feixes nervosos (e os chamados “meridianos” da cultura médica chinesa - acrescentamos nós), condutores das correntes vitais (o equivalente aos sistemas circulatórios sanguíneo e linfático nos animais, e à seiva no reino vegetal).

Tendo-se evidenciado, designadamente, que diversos minerais e outras substâncias (o ferro, a magnetita, o âmbar.) eram possuidores dessas propriedades de magnetismo e que, inclusive, os próprios seres humanos (e não só) tinham na sua constituição biológica ferro e outros numerosos metais em diferentes proporções (( Sabe-se hoje que nos tecidos vivos são os iões inorgânicos que transportam a corrente eléctrica. Por exemplo, constatou-se, cientificamente, que ocorre uma transferência da dita corrente partindo de uma zona corporal lesionada para uma outra sã. Assim, cada traumatismo muscular, cada batimento cardíaco ou cada fenómeno de secreção glandular determinam ou estão associados a mudanças de estado eléctrico. As zonas, tecidos ou órgãos afectados (excitados) assumem, então, uma polaridade negativa em relação às zonas ilesas.)), ele cogitou que bem poderia ser que igualmente eles constituíssem canais condutores de electricidade e magnetismo (energia vital).
Daí, tendeu, fortemente, para a probabilidade de que a doença - o desequilíbrio funcional biológico - fosse o resultado directo de uma “despolarização” ou “descompensação” dessa energia, do que decorreria a deficiência no desempenho de diversos órgãos e - inclusive, e em cadeia - dos sistemas orgânicos funcionais a eles afectos ou subordinados.

Ponderando que um afluxo energético poderia, por diversas contingências, ficar bloqueado e “estagnado” ou, pelo contrário, deficitário numa dada região corporal, deduziu que o restabelecimento desses equilíbrios determinaria a recuperação do estado de saúde dos indivíduos. Procedeu, então, a uma curiosa experiência:

… As suas experiências e a sua importância
Preparou uma tina de madeira, imantada, cujo fundo cobrira de vidro e limalha de ferro. Submeteu, depois, vários pacientes voluntários à emersão na referida tina, assim perspectivando avaliar se, de facto, os pacientes lograriam retirar a energia que lhes faltava dessa exposição aos eflúvios magnéticos. O resultado, assombroso, foi que um considerável número de pacientes se recuperou ou melhorou significativamente de seus males. A par desta investigação, empreendeu muitas outras com varas magnetizadas.

Mais tarde, Mesmer incidiu as suas pesquisas particularmente sobre o magnetismo humano. Começou a efectuar experimentações com a aposição de mãos, induzindo mentalmente o fluxo magnético (a energia do que chamou “magnetismo animal”) a passar para os seus pacientes, especificamente para as zonas afectadas (não esqueçamos, que, em todos os condutores energéticos, a energia tende a fluir e a sair pelas pontas.).

Os seres vivos “metabolizam essa energia radical” da Mãe Terra nas suas componentes relativas aos chamados Planos da Forma (Mental inferior; Kâmico ou Emocional; Astral, mais tarde chamado Etérico; Físico Químico). Especializam-na e colorem-na com o índice vibratório inerente ao seu próprio psiquismo (note-se que o termo psiquismo se aplica precisamente aos níveis Kama-manásicos e Astrais-Etéricos). De modo que, ao irradiar essas energias (pelas pontas dos dedos ou, meramente, pela intenção direccionada - mental ou com o auxílio do veículo do “olhar”), o homem faz transportar o seu próprio carácter, podendo este ser: a) de inferior (baixo) nível vibratório (correndo-se o risco de degradar mais ainda o foco da afectação do paciente), b) um carácter de nível vibratório relativamente equivalente (e que, portanto, não acrescenta inconveniente neste particular âmbito), c) ou uma emanação de natureza mais refinada e benéfica. Neste aspecto global, a energia proveniente de um íman mineral afigura-se mais inócuo, porque neutro, relativamente ao nosso próprio índice ou nível de consciência.

Em todos os casos, porém, tal acção terapêutica é e será sempre pontual, superficial e passageira - sendo satisfatoriamente apropriada para o reforço energético numa baixa temporária de energia anímico-psíquica, para uma baixa de tensão, para um acidente (ligeiro) hipoglicémico, para uma enxaqueca. Não nos iludamos, pois, nem caiamos na maior inconsequência e puerilidade pressupondo que este meio de sanação poderá erradicar problemas de fundo - problemas esses que apenas se resolvem com um trabalho conscientemente direccionado de reorientação de pensamento e de reordenação de costumes e atitudes (portanto, de uma auto-regeneração ou “alquimia” interior). Nas doenças já instaladas, será, eventualmente, uma útil complementação de outras terapias mais efectivas e determinadas. Por exemplo, uma tal panaceia externa e, evidentemente, impermanente, não resolverá de raiz o sugadouro ininterrupto, incessante, em termos energéticos, que ocorre quando uma pessoa está sujeita a um contínuo desgaste emocional (stress, aflição, medos, desgostos, preocupações, tensões, carências de vária ordem, etc).

Na sua época, Mesmer foi muito criticado por diversos sectores da comunidade científica que se recusavam a admitir que os seres vivos fossem detentores desse “fluido” electromagnético. Contudo, no Ocidente, ele foi o percursor do estabelecimento - depois considerado “científico” - das correntes eléctricas biológicas que estiveram na base de numerosos estudos posteriores no âmbito da Psicolo-gia/Psiquiatria, da electrofisiologia aplicada às diagnoses
em Cardiologia (através de electrocardiogramas) e nas Encefalopatias (através de electroencefalogramas) e, mesmo, de todo o manancial presente e disponível no campo alargado das Ecografias, Ressonâncias magnéticas, etc.

Kardecismo e outras correntes
Retornando, simplesmente, à actuação por simples irradiação volitiva de (a partir de) um ser humano, quase um século depois da polémica de Mesmer, o Movimento Espiritista de Allan Kardec, ramificado em numerosos países, encetou uma prática em muito semelhante à do Mesmerismo. Presumindo que a causa de numerosas afecções se poderia dever à “desvitalização” provocada por “espíritos desencarnados” que se apropririariam do ectoplasma (a que também chamavam perispírito) dos vampirizados, levaram à prática a reposição dessa energia vital por meio, justamente, da imposição de mãos. Ainda hoje essa medida (a que vulgarmente chamam “fazer passes.”), em concomitância com a da imantação fluídica da água para beber (e com o objectivo, conjunto, de “limpeza psíquica”) é comum nos muitos Centros Espíritas disseminados por vários países. Contemporaneamente, uma outra personalidade carismática, Riechenbach, propugnava idênticas práticas e, a essa energia, chamou “ódica”.

Entretanto.
Nas últimas décadas do século recém-concluído, outros Movimentos, de procedência oriental - mais propriamente oriundos do Japão -, proliferaram na América e Europa, nomeadamente em Portugal, difundindo esses mesmos meios terapêuticos de irradiação através das mãos. Ainda outras organizações se especializaram em diversificadas (se bem que semelhantes na essência) metodologias de sanação com recurso a ímans metálicos (apostos de determinada maneira, quase sempre de um e outro lado da região corporal afectada) visando a expulsão de humores negativos causadores de disfunções ou doenças.

Entretanto - e por fim -, diversa literatura pretensamente inovadora (regra geral, sensacionalista) veio implantar o “boom” e fazer crer e circular que o Reiki é uma maravilha recente - mitificando essa prática de todas as formas passíveis de ser empoladas e exploradas. Sustenta-se que é “uma passagem de energia divina” ou “energia universal”, definidamente “espiritualizante” - e esotérica (a palavra “mágica” dos nossos dias, infelizmente quase sempre desprovida do correcto sentido original).

Sem dúvida que tudo neste mundo é “divino”; assim, toda a energia que se nos infunde e por nós circula é, necessariamente, “divina”. Nesse sentido, tudo é um “dom de Deus” mas, nem por isso, vamos dizer que um médico - por se dedicar a curar - é um grande espiritualista exercendo o seu “sacerdócio”. É, pois, abusivo e leviano confundir as coisas e fazê–las sair do seu próprio, restrito e legítimo patamar - mesmo que, na sua área (a da sanação), pudessem ser as mais úteis e eficazes.

Hoje em dia - e por tudo e por nada - se puxa pelos pretensos “galões” e “credenciais” que, supostamente, atestam o “alto grau de espiritualidade atingido”, e diz-se, ufanamente: “. tenho a 1a ou tenho a 2a iniciação do Reiki.” ou “. sou Reikiano/a - (e, com isto, digo tudo.)”. Deveras, se atingem foros de alienação colectiva, e se imiscui o verdadeiramente sagrado e digno de ser reverenciado com uma propalada mas vulgar, ainda que relativamente útil ou eficaz, terapia. E mais uma vez, em círculos pretendidamente esotéricos, uma “moda” ou um entretenimento de secundária ou terciária importância real (tal como um rebuçado ou um brinquedo que cativa um bebé) desviam do essencial - no incontornavelmente laborioso e lúcido Caminho Evolutivo que é suposto desejarem percorrer. A tal ponto se chegou, que muitos só a custo ousam confessar que, afinal, até se sentiram mal com essas práticas (tantas vezes, pagas com rios de dinheiro.).

Em todas as épocas, existem e actuam “Forças retrógradas” interessadas em “entreter” e “aquietar” - em suma -, em “aprisionar” a humanidade ainda imatura, precisamente com a puerilidade que ainda lhe é atractiva e afim. Nada mais fácil do que aproveitar um ensejo ou uma plataforma de aparências inócuas e, até, benfazejas (em princípio, inatacáveis e insuspeitas), escudar-se nelas e mascarar os verdadeiros objectivos embrulhando-os com vistosos envólucros, sugerindo “miríficas” e “beatíficas” realidades.

Posto isto, longe de afrontar o (hoje chamado) Reiki como terapia (domínio onde conhecemos bons amigos e pessoas de sã intenção), o que nos move é a demarcação das suas fronteiras, esclarecendo e desvanecendo a generalizada presunção de que “constitui uma Ciência Espiritual e Espiritua-lizante”, ou de que “é um dos Ramos Nobres das Ciências ditas Esotéricas”.

Assim, devemos clarificar as questões mais empolgantes que se têm gerado em torno dessa prática: não alinha os chakras e, muito menos, conduz à sua abertura (o que, aliás, seria desastroso); não alinha to-dos os sete corpos (!!!) nem limpa todas as respectivas auras; a energia aludida não radica no chakra car-díaco nem é por ele impulsionada; não promove o “milagre” da Evolução Espiritual individual e/ou colectiva; não opera a conexão com o “Eu Superior”; não é veículo de bençãos de Seres Superiores; não confere nenhum estatuto espiritual particular a quem o pratique. Pode, contudo (e eventualmente), constituir um expediente (ou suporte) para ajudar a focalizar diversas intenções benéficas e de progresso, do mesmo modo que outros instrumentos operam como pontos de apoio visando os mesmos objectivos - nomeadamente, as mandalas, os terços (ou rosários), as velas, o incenso, mesmo os mantrams e orações. Esclareça-se, no entanto, que a verdadeira meditação (em si) é uma coisa totalmente distinta.

Em suma, na Ascensão Espiritual, unicamente a determinação num auto-aprimoramento (que capacite o indivíduo a ser um Servidor) é condição para a Evolução. Tal empreendimento é completamente independente de quaisquer práticas reikianas. Quanto a estas, fiquemo-nos, pois, pelos seus domínios naturais, singelos, e legítimos - (eventualmente) afins com o Shiatsu, o Do-in, a Reflexologia e outras práticas dignas e valorosas nas suas respectivas áreas e competências. E tudo estará certo e nada violará os preceitos da correcção, da verdade e da ética.

O Reiki como Culto
Em Esoterismo, o estudo empenhado, e em constância, é absolutamente indispensável. Constitui-se na habilitação progressiva à penetração nos Mistérios e Leis da Natureza. Facilita e promove a identificação e a comunicabilidade do homem (o Microcosmo) com o Macrocosmo - abrindo portas para uma plena (e)fusão da Vida, no sentido superior da expressão. De molde que, de forma alguma, nos podemos preencher e, tão-pouco, mitigar a “sede” de cumprir, limitando-nos a exercer alguma “generosidade” ao empreender curas provisórias e que mais esforço não exigem de nós do que a permuta, tantas vezes (quase infantilmente) teatralizada, de (perdoem a expressão) “doces e acariciadoras cumplicidades estereotipadas”, em ambientes pseudo-espiritualistas a que não faltam requisitos de “perfumes”, “velas”, “cristais”, e outros aparatos suficientemente sensibilizantes.

Depois. depois, vai-se para casa, e a rotina continua intacta, e o mundo continua igual - sem nem mais um acrescento à sua condição substancial e inalteravelmente indefesa; porque, na verdade, a ignorância é o maior dos males, e a acomodação e a inércia, com todos os expedientes que se criam para os justificar e para nos convencermos de que já somos suficientemente “úteis” e “grandes”, é o seu maior propulsor.

Quando estas práticas se tornam um “culto” (como, infelizmente, hoje em dia esse fenómeno é proliferante!), o risco de se “engordar o egocentrisno” é demasiado grande: com efeito, a permuta de “afagos na aura”, para cá e para lá, pretensamente legitimados e cunhados com a marca de “espiritualidade” e promotores de “orgulhos e vaidades mascarados”, bom resultado real não podem trazer.

É certo que “descomprimem”, relaxam e podem produzir bem-estar. E dirão: que mal tem isso? De novo esclarecemos que apenas é incorrecto e, mesmo, um logro, se com isso se pretender presumir ou evidenciar a detenção de uma “alta cotação espiritual ou evolutiva” - e que é o que maioritariamente se passa nesses ambientes.

Uma linha-de-menor-resistência…
O perigo é que os ditames e o pensamento da “egrégora” inadvertidamente gerada pelo colectivo (dos cultores ou fiéis) acaba por se substituir ao pensamenso individual (que se pretende livre). Neste tipo de Movimentos, que surgem (que vão e vêm, no tempo e no espaço) por ondas, o perigo de alienação, de facto, instala-se. Dizemos isto com propriedade: conhecemos suficientemente a realidade de dezenas de países através de uma volumosa correspondência que recebemos diariamente (uma vez que o Centro Lusitano de Unificação Cultural tem livros publicados em diversas línguas, que circulam em muitas dezenas de países de 4 Continentes, e que, desses, tem delegações em 26). Por essas cartas (e não só), apercebemo-nos a que foros de alienação chegaram muitas e (já) muito diversificadas organizações que têm o Reiki como o seu supremo pólo de cultura e actuação, arrastando consigo, frequentemente, pessoas bem intencionadas e em busca de poderem ser verdadeiramente úteis. É certo que em Portugal (ainda) se não chegou a tanto, nem se adquiriram, em definitivo, essas características; contudo, o exemplo tendencial, ao nosso lado, é um alerta e um sinal de alarme que temos como dever ponderar criteriosa e escrupulosamente.

Isabel Nunes Governo
Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

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